Este que agora escreve não reconhece o outro lá do passado e não entende a sua poesia. O desencontro inesperado, que na verdade é, eu, cara a cara comigo mesmo, numa espécie de espelho da memória, revelou-me a nova e imperiosa ordem que chegou com a idade: não mais produzirás chocalhos de palavras tolas. Pela manhã, bem cedo, revisitei um poema que escrevi mais ou menos aos trinta anos, e uma pequena crônica de um menino (eu mesmo) e sua mãe. Foi como ter recebido a notícia de que alguém morreu, e se não sabia. E morri pra "ressuscitar". Aquele ali, no reflexo, brilhante, carrega mais rugas que o outro lá do poema dos trinta. E não ouço mais a voz de minha mãe [que gritava do passado], e nem me lembro o signo que arranhava as suas cordas... Lembrei. Ela estava coberta de razão. Se não ouço mais aquele insulto (conselho), pode bem ser que, talvez, enfim venci o que me consumia os dias naquela idade. Mas desconfio que o meu anjo da guarda ainda me cutuca pela manhã para que eu não perca a hora. Anjos não falam. Só por ordem urgente de Nosso Senhor ou de sua Mãe. E aquela voz não era a minha mãe. Certamente era a minha culpa, que, invadindo o tribunal da consciência, não me perdoava os excessos e travessuras. Renascer velho tem lá suas vantagens, posso reviver a criança que nunca quis crescer, e com uma revoltante desvantagem: já sabendo que isso não vai mais acontecer. Outra vantagem é não mais ouvir minha mãe gritar à hora de tomar banho. Guardo, porém, com alegria, a lembrança do beijo e o "boa sorte", no portão da escola. Eu corria com a mochila a chacoalhar nas costas, parava e olhava para trás, do meio do pátio, por sobre o muro: a cabeça da mãe subia e descia ao passo da caminhada, e eu só avistava o topo de sua cabeça, um dia de lenço, por vezes de popa no cabelo preso com palito oriental, moda entre as senhoras da época; e seguia para o trabalho. Imagino que pensava em mim. Talvez a chorar. Eu corria, corria e corria, e não me lembro para onde, quem sabe, na direção daquela que, por algumas horas ia cuidar de mim, a professora de rosto e nome apagados da lembrança. De volta ao pátio, depois das aulas quais não tenho recordações, a moça negra (Mara) sorrindo dizia meu nome e me dava a melhor notícia: “corre! tua mãe veio te buscar”. Tenho vaga lembrança do recreio. Porém, a merendeira amarela estampada com o Incrível Hulk jamais esqueci. O monstro de roupa rasgada destruindo uma parede com um soco potente. Dentro, um pão e café com leite numa pequena térmica que não mantinha a temperatura. Do pão, só miolos. Mãinha tirava toda a casca crocante porque eu não gostava da casca crocante do pão. Na saída da escola caminhávamos embaixo de umas mangueiras e amendoeiras no caminho para casa. Eu adorava desviar das poças por entre as irregularidades do terreno, sentir a lama cremosa dificultando o passo e os sapatos ficando mais pesados. No verão as andorinhas e na primavera cigarras assinavam a trilha sonora que fazia-me esquecer das poças e da lama. Agora não corro mais. Caminho lento. Lama e poças causam-me irritação; tomo nota para reclamar da ineficiência do serviço público. E, se a sorte me sorrir, como rogava a minha mãe, a mim os caminhos se abrirão pavimentados, ainda dá tempo! E meu sonho é reencontrá-la de braços abertos nos portões do Céu, quando terminar o curso da escola da vida.